Há anos que o perfil e a rotina da mulher já não são mais os mesmos. Hoje, ela é esposa, dona de casa, profissional, motorista, atleta e, além disso tudo, mãe. Para retratar as dificuldades e as realizações dessa nova mulher, a psicóloga, empresária, mãe de dois filhos e escritora Cecília Russo Troiano lançou o livro Vida de Equilibrista — Dores e Delícias da Mãe que Trabalha (Cultrix, R$ 24,65), prefaciado pela jornalista Fátima Bernardes.
Por meio de uma pesquisa organizada em duas frentes de trabalho, a autora promoveu uma série de discussões entre mulheres de diferentes perfis — umas trabalhavam fora e outras, após a maternidade, já haviam abandonado suas carreiras. Numa segunda etapa, Cecília entrevistou 800 mulheres de todas as regiões do Brasil e também conversou com pais e profissionais ligados ao cotidiano das mães brasileiras, como pediatras e educadores, entre outros.
Em entrevista à ler&Cia., a escritora revelou que, antes de decidir ter filhos, uma mulher precisa colocar numa balança a sua vida pessoal e a profissional. "Se, para ela, ser mãe está acima de qualquer coisa, sua carreira poderá esperar", disse Cecília. "Por outro lado, se o seu trabalho for algo fundamental, um filho pode aguardar um pouco mais para vir ao mundo. Em qualquer um dos casos, a decisão não é fácil. É realmente uma questão de prioridades."
Tanto na gravidez quanto no retorno ao trabalho, afirma a psicóloga, os sentimentos se misturam e muitas dúvidas e dificuldades são enfrentadas. "Em ambas as situações, o receio que se tem é pelo novo, pelo desconhecido que está por vir. A vida da mulher e do casal irá mudar completamente — e para sempre", destaca. Para ela, o grande receio das mulheres é não conseguir administrar todos os segmentos da sua vida pessoal: a casa, o bebê, o trabalho, o marido. E é a partir desse momento que a mulher passa a contar com os avós, com a babá, com a empregada e com o marido, que garantirão a sua permanência na profissão. Das entrevistadas por Cecília Troiano, 61% deixam os seus filhos na escola, 43% em casa (com babás ou empregadas) e 24% na casa dos avós.
Culpa versus felicidade
A autora de Vida de Equilibrista salienta que o papel do parceiro é fundamental em todo esse processo, e que a mãe precisa abrir espaço para o pai entrar nessa relação. "É comum mães absorverem para si todas as atividades ou reclamarem do jeito que os maridos fazem as tarefas. Os pais, nesse caso, acabam se desestimulando e é aí que não ajudam mais mesmo." Assim, ainda são poucos os homens que pegam no "batente" para ajudar suas companheiras. "As mães ainda são onipresentes nas atividades que envolvem a criação e a educação dos filhos. Mas creio que vivemos um processo de mudança. Em breve, estaremos com uma divisão mais equilibrada", diz Cecília.
Em relação à criança, Troiano acredita que as mães que trabalham passarão aos filhos um modelo de mulher diferente daquele da que não trabalha fora. "Não digo pior ou melhor, mas diferente. Filhos de mães que trabalham terão valores e princípios diferentes."
Durante sua pesquisa, Cecília mediu a culpa que suas entrevistadas sentiam por trabalhar, e também a felicidade de se realizarem profissionalmente. "Digo que a média da culpa, de zero a dez, foi sete, e a da felicidade, nove. Ainda bem. Creio que as mães que trabalham se sentem vitoriosas e, de certa forma, heroínas. É realmente algo que dá trabalho, mas por outro lado, uma grande satisfação".
ler&Cia. Livrarias Curitiba, Catarinense e Porto. Edição 20 - mai/ jun 08. p. 15.
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