segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ah, o amor...

Quem assiste tv já deve ter visto uma propaganda de bombom em que o narrador descreve, muito bem-humoradamente, o processo de se apaixonar como uma ilusão que, com o tempo, se desfaz (e que o famigerado bombom ajudaria a desencadear...).

Mas o amor romântico não é uma invenção tão recente. Já no início do século XIX, o escritor francês Stendhal descrevia com muito apuro e sensibilidade esse mesmo processo. Para ele, a 'cristalização' é a "ação mental que descobre novas perfeições no ser amado a cada acontecimento" e corresponde à primeira fase do amor.

No verão de 1818, Stendhal fez um passeio até as minas de sal de Hallein, perto de Salzburgo, com sua amiga e sócia Madame Gherardi. Lá o fenômeno da 'cristalização' do sal foi descoberto e utilizado por eles como uma metáfora para os relacionamentos humanos.

Nas minas de sal, perto do fim do inverno, os mineiros jogam um galho seco e sem folhas num dos locais de trabalho abandonados. Dois ou três meses depois, graças ao efeito das águas saturadas de sal que encharcam o galho e depois recuam, permitindo que ele seque, os mineiros encontram sobre o galho uma cobertura luminosa de cristal. Os menores desses galhos, meras unhas de gato, ficam recobertos por uma infinidade de pequenos fragmentos de cintilação e surpresa. O galhinho original já não é reconhecível; tornou-se um brinquedo de criança, muito agradável aos olhos. Quando o sol brilha e o ar está perfeitamente seco, os mineiros de Hallein aproveitam a oportunidade para oferecer esses diamantes em flor aos visitantes que se preparam para descer e admirar a mina.
[1]

Assim, de acordo com Stendhal, no momento em que começamos a nos interessar por uma pessoa, não a vemos mais como ele ou ela realmente é, mas como nos agrada vê-lo (ou vê-la). De acordo com essa metáfora, o que observamos são ilusões criadas por um interesse nascente, ilusões análogas a belos diamantes que escondem um galhinho sem folhas, perceptíveis apenas para os olhos de alguém que se apaixona.

[1] Sobre o Amor, Capítulo 2. Publicado recentemente na coleção L&PM Pocket. A tradução utilizada aqui foi feita por mim a partir de uma versão em inglês (!). Desculpem-me. Era o que eu tinha à mão...

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